Imortalidade e fé
Rogério Coelho

  A história do Cristianismo é a suave melodia que canta a glória desses acontecimentos maravilhosos de que nos falam as Escrituras, começados no Sinai e sancionados pelo reaparecimento do Grande Enviado.
   Quem estudar com boa vontade e critério todo esse desenrolar de manifestações espíritas, todos esses fenômenos suprassensíveis e supranormais relatados por todos os profetas e patriarcas referidos no Velho Testamento e referendados no Novo, por uma soma não menos considerável de fatos, que estão em íntima ligação com o Mundo Espiritual; quem estudar com espírito desprevenido todas essas manifestações espíritas que tantas esperanças nos vêm dar, não pode deixar de ter uma fé viva, robusta, inteligente, racional, de que o escopo da Religião é preparar-nos não só para a Vida presente, como também, e especialmente, para a futura, onde, na Pátria Invisível, prosseguiremos nosso labor de aperfeiçoamento para nos aproximarmos de Deus.
   Justificada nesses princípios, nossa Fé se ergue poderosa, inabalável, semelhante àquela casa construída sobre a rocha, lembrada na parábola.
   É o sentimento da Imortalidade que nos anima, é a certeza da outra Vida que nos faz viver nesta com a fronte erguida, sem desfalecimentos, embora sangrando os pés por estradas pedregosas, dilacerando as carnes nos acerados acúleos que tentam impedir nossa marcha triunfal para o Bem, para a Verdade, para Deus…
   Revestidos da Imortalidade, singramos os mares borrascosos da adversidade em frágil batel, sem que as ondas impetuosas nos afastem do norte da Vida.Sem essas luzes que nos vêm do Além, sem essas claridades que surgem dos túmulos, sem esse poderoso farol habilmente manejado pelos Espíritos do Senhor, como poderíamos manter a estabilidade da Fé?
   Sem dúvida alguma, o Espiritismo é a base em que se fundamenta essa crença que nos arrima e fortalece. É ele ainda que nos ensina a benevolência, o amor, a humildade, o desapego aos bens do mundo, as altas lições de altruísmo, de abnegação que a Imortalidade nos impõe.
   Como poderíamos, nesta época de depressão moral que atravessamos, de mercancia vil, de rapina descarada, de toda sorte de baixezas, esforçar-nos para nos livrar da corrupção do século, até com prejuízo de nossa vida material? Qual é o homem racional que, tendo a certeza de que tudo acaba no túmulo, renuncia à fortuna, prazeres, bem-estar, em benefício de terceiros, em benefício de outros que terão também, forçosamente, como fim da existência, uma cova rasa no quadrado de um cemitério?
   Olhai as grandes catedrais com todas as suas pompas, perscrutai seus sacerdotes, observai os infelizes do mundo com suas comodidades, sua fortuna, inquiri suas crenças e vereis que a Fé não lhes anima o coração! Agitai na direção deles o lábaro da Imortalidade e vereis esses gozadores atirar sobre vós e o vosso estandarte as mais duras imprecações, as mais loucas diatribes! É que lhes falta a Fé para o raciocínio, falta-lhes o critério que nasce da mesma fé, falta-lhes a Verdade para mais bem se guiarem na trilha do dever imposto por Deus. Entretanto, assim como pensam, agem: só creem nesta vida, "aproveitam" dela tudo o que ela tem de bom, porque, de fato, é irrisório e irracional sacrificar prazeres e comodidades para ter em recompensa as voragens do nada.
   Sem a Fé, nenhum sentimento generoso poderá erguer a alma humana; sem a Fé, nenhuma caridade, nenhuma esperança, nenhuma virtude pode nascer, crescer, florescer, frutificar na consciência dos homens. Ela remove todas as dificuldades para aquele que caminha para Deus; brilha na inteligência como o Sol no espelho das águas; dignifica o homem, eleva-o, ilumina-o e o santifica!…
   Não há palavra que ocupe menor número de letras e mais saiba falar ao cérebro e ao coração. Com uma só sílaba exprime tudo o de que necessita à criatura para conseguir a sua salvação. Ter fé é ter certeza nos nossos destinos imortais, é guiarmo-nos por essa estrada grandiosa, iluminada, que o Cristo nos legou; é ser possuidor do maior tesouro que a alma humana pode adquirir na Terra.
   Foi interpretando essa grande virtude que Paulo dedicou toda a sua grande epístola aos romanos à Fé, chegando a afirmar que todos os maiores da Antiguidade, pela fé, venceram os reinos, praticaram a justiça, alcançaram as promessas, taparam as bocas aos leões, extinguiram a violência do fogo, evitaram o fio das espadas. De fracos, se tornaram fortes, fizeram-se poderosos e puseram em fuga exércitos estrangeiros!
   O Espiritismo vem fazer realçar estes três fatores do progresso humano: a Imortalidade, o Espírito e a Fé, como partes integrantes de um mesmo todo e indispensáveis um ao outro, testemunhos vivos que se afirmam e se completam.
   Colunas principais do Cristianismo, são eles que nos dão a visão da outra Vida, na qual colheremos os frutos do nosso trabalho, dos nossos esforços pelo nosso próprio aperfeiçoamento.
 
REVISTA DE ESPIRITISMO CRISTÃO.
ANO 118 - JANEIRO 2000 - Nº 2050.