Os espíritos podem retrogradar?
Rodolfo Caligaris

   A doutrina espírita nos ensina que em sua origem os Espíritos se assemelham a inocentes crianças, isto é, são simples, ignorantes e completamente inexperientes, carecendo adquirir, pouco a pouco, os conhecimentos que haverão de conduzi-los à plenitude da sabedoria e da bondade (questão 634 de O Livro dos Espíritos).
   Diz-nos, ainda, que todos possuem, latentes, as mesmas faculdades, cujo desenvolvimento mais ou menos rápido depende de seu livre arbítrio, o qual, por sua vez, vai-se ampliando e fortalecendo à medida que cada um toma consciência de si mesmo nos embates da Vida.
  Nessa escalada, os Espíritos estão sujeitos a errar e permanecer estacionários por algum tempo; jamais, porém, poderão degenerar, tornando-se piores do que eram, nem cristalizar-se definitivamente em determinado estágio evolutivo, contrapondo-se à ordem divina que os impele para frente e para o alto.
   Deus, se o quisesse, poderia tê-los criados já perfeitos e isentos de qualquer trabalho, para gozarem os benefícios da perfeição. Em seus sábios desígnios, todavia, fê-los apenas perfectíveis, para que lhes pertencessem os méritos dessa glória e também porque só assim a saberiam apreciar devidamente.
   Perguntam alguns:
   1) Se os Espíritos foram criados nem bons e nem maus, com iguais aptidões para tudo, por que uns seguiram o caminho do bem e outros trilharam a senda do mal?
   2) Estes, os que se desencaminharam, não estarão contrastando a afirmação kardequiana de que "os Espíritos não retrogradam"?
   Respondendo à primeira questão, diremos que, em conformidade com o enunciado linhas acima, Deus deseja que todos tenham o merecimento do progresso moral e da bem-aventurança a que se destinam e, por isso, a par dos meios que lhes põe ao alcance para esclarecê-los e atraí-los a si, concede-lhes relativa liberdade para que realizem, pelo próprio esforço, esse sublime desiderato.
   Insipientes, podem eles, então, tal qual o filho pródigo da parábola evangélica, enveredar por ínvios carreiros (os vícios e os crimes), distanciando-se da retidão (o cumprimento das leis de Deus). Cada vez, porém, que isso acontece, sofrem tropeços, quedas e acúleos que os fazem retornar ao bom caminho.
   Desta forma, esses transviamentos temporários, com as agruras que lhes são consequentes, constituem experiências que eles vão adquirindo para se conduzirem com acerto no futuro e não mais fugirem ao roteiro que lhes cumpre palmilhar.
   Conforme se diz, o Bem é a única Realidade Absoluta, o destino final da Criação, sendo o Mal apenas a ignorância dessa realidade, ignorância que vai desaparecendo paulatinamente através do aprendizado em vidas sucessivas.
   "Errando também se aprende", diz um refrão popular. E muito, acrescentamos nós. De sorte que passar do estado de inocência, ou seja, de total inconsciência, para o de culpabilidade, em virtude de engano na escolha de certo modo de agir, não significa retrogradar, mas, sim, ganhar tirocínio, desenvolver a capacidade de discernimento, sem o que nenhum avanço seria possível.
   Em qualquer ramo de Ciência, depois de uma dezena de experimentações diferentes mal sucedidas, o pesquisador estará evidentemente mais próximo da solução que persegue do que antes de iniciá-las, porque os resultados obtidos, embora negativos, lhe terão fornecido preciosos subsídios a respeito, indicando-lhe o melhor rumo a tomar.
   Como se sabe, milhares e milhares de coisas que tanto conforto e bem-estar oferecem, hoje, à Humanidade, são frutos de uma série enorme de fracassos, senão mesmo de desastres e de sacrifícios cruciantes que afinal se transformaram em grandes e esplêndidos triunfos.
   Pois bem! O mesmo sucede na conquista da perfeição. Advertidos pela Dor a cada falta que cometemos, vamos aprendendo a evitá-la e dia virá em que, percebendo que "ser feliz" é a consequência natural de "ser bom", todos haveremos de cumprir a Lei de Amor, estabelecida por Deus para a felicidade de todos.
   Os que perfilham doutrinas anti-reencarnacionístas, não aceitam que todas as almas sejam criadas "com iguais aptidões para evoluir" e nem aceitam que as diferenças atuais dessas almas, em saber e moralidade, sejam o resultado de progressos realizados em existências pregressas, como ensina o Espiritismo.
   Essas diferenças, no entanto, são reais, incontestáveis, e ressaltam à vista de qualquer um, mas, como não encontram uma causa anterior para justificá-las, dizem: é porque Deus as tem criado assim, desiguais e sem as mesmas aptidões!
   A quê se reduziria, neste caso, a Justiça Divina?
 
Do livro As Leis Morais, cap. 9.