Riqueza Material: Grande desafio à humanidade
Anselmo Ferreiro Vasconcelos

   O equilíbrio e o bom senso ao lidar com as posses materiais constituem dois dos mais graves desafios colocados à evolução dos Espíritos. O fator financeiro tem sido causa de muitas desgraças e clamorosos fracassos para muitas criaturas humanas. Neste início de milênio ainda prevalece a busca infrene pela acumulação de riquezas, e não raro uma pessoa é considerada bem-sucedida conforme o tamanho da sua conta bancária.
   Muitas revistas empresariais – nacionais e internacionais – publicam em edições periódicas o ranking dos mais ricos. Grosso modo, pode-se classificar tais pessoas em quatro grandes grupos. O primeiro, levando em conta que todos somos dotados de determinadas potencialidades e talentos, é constituído por aqueles que possuem uma capacidade especial para a geração de riquezas. Normalmente, são empreendedores que possuem larga visão empresarial e comercial. Nesse sentido, vislumbram e corporificam ideias quase sempre altamente lucrativas. Tais pessoas geralmente são agentes do progresso material, considerando que suas criações, via de regra, atendem demandas latentes da Humanidade e das organizações.
   O segundo grupo são os que também enriquecem por causa dos seus talentos ímpares em determinados campos. Referimo-nos aos artistas, atletas, profissionais liberais e outros. Tais pessoas conquistam, como fruto dos seus labores, uma posição privilegiada em termos econômico-sociais. O terceiro, são os que já "nascem em berço de ouro", cabendo a eles, muitas vezes, ampliar o patrimônio herdado e a manutenção do bom nome das famílias às quais pertencem. O quarto e último grupo permeia, de uma certa forma, todos os anteriores, ou seja, seus membros constituintes são empresários, profissionais liberais, servidores públicos, entre outros, que enriquecem por meios ilícitos. São, por assim dizer, os arrivistas contumazes que caminham na vida ao largo da ética e do senso de justiça. São geralmente pessoas inteligentes que não medem esforços e consequências para alcançar suas metas. Temos visto muitos deles no noticiário hodierno acusados como protagonistas de lamentáveis deslizes morais associados a corrupções, subornos e escândalos de vários matizes.
   A rigor não há crime algum em ser rico. Mas também é público e notório que a distância entre os chamados ricos e o restante da população em nações como o Brasil, por exemplo, vem aumentando assustadoramente. Aliás, em nosso país, lamentavelmente, tem-se ainda notícia de pessoas trabalhando – especialmente em fazendas – em regime de escravidão. Não são igualmente poucos os que labutam sem carteira profissional registrada, sem falar no elevado patamar de desempregados. Tais fatos, à luz do Espiritismo, merecem também atenção, tendo-se em vista que: "O Cristianismo possui o extraordinário objetivo de criar uma sociedade equilibrada na qual todos os seus membros sejam solidários entre si".(1)
   É obvio que tal desiderato só será alcançado mediante profunda transformação interior das criaturas humanas. Não obstante, a sublime advertência de Jesus sobre a facilidade de um camelo passar pelo fundo de uma agulha – referência à porta denominada de Buraco da Agulha que se abria para os desertos da Síria, e que era de difícil transposição na Jerusalém de seu tempo(2) – do que um rico entrar no reino de Deus, o homem ainda insiste na acumulação fria, egoísta, mesquinha e mesmo perversa de bens materiais. Segundo o Espírito Fénelon: "O mau uso consiste em os aplicar exclusivamente na sua satisfação pessoal; bom é o uso, ao contrário, todas as vezes que deles resulta um bem qualquer para outrem. O merecimento de cada um está na proporção do sacrifício que se impõe a si mesmo. A beneficência é apenas um modo de empregar-se a riqueza; ela dá alívio à miséria presente; aplaca a fome, preserva do frio e proporciona abrigo ao que não o tem. Dever, porém, igualmente imperioso e meritório é o de prevenir a miséria. Tal, sobretudo, a missão das grandes fortunas, missão a ser cumprida mediante os trabalhos de todo gênero (...)".(3)
   Portanto, não é difícil concluir que o emprego das fortunas ainda não segue as sensatas recomendações exaradas. Não é por outra razão, aliás, que existem tantas almas no Planeta sem o mínimo necessário às suas sobrevivências. Por outro lado, a literatura espírita tem sido extremamente explícita sobre as nefastas consequências colhidas pelos sovinas, desonestos e incautos.
   Num dos inúmeros casos relatados, o Espírito André Luiz aborda o triste encontro com seu avô paterno, Cláudio, em uma de suas muitas missões nas regiões umbralinas. Comenta o inolvidável companheiro que todos os Espíritos ali se encontravam em terríveis condições, a saber: "(...) Esfarrapados, esqueléticos, traziam as mãos cheias de substância lodosa que levavam de quando em quando ao peito, ansiosos, aflitos. Ao menor toque de vento, atracavam-se aos fragmentos de lama, colocando-os de encontro ao coração, demonstrando infinito receio de perdê-los".(4) Em outras palavras, aqueles inditosos irmãos em assim agindo imaginavam reter o ouro em suas mãos.
   O instrutor de André na referida missão libertadora, Calderaro, por sua vez, esclareceu-lhe tratar-se de criaturas enlouquecidas pela paixão de possuir culminando como "(...) escravos de monstros mentais de formação indefinível".(5) Assim sendo, em tempos como os que estamos vivendo, onde o Espiritismo desenvolve uma ação perene para iluminar as consciências apegadas às sensações mais torpes, a precaução ao lidar com quantidades substanciosas de haveres monetários é imprescindível.
   Sob o imperativo da lei de ação e reação, à qual todos estamos submetidos, aos Espíritos que fracassam na prova das posses materiais – indubitavelmente, uma das mais difíceis e complexas –, caberá enfrentar ásperas experiências até a aquisição dos tesouros que as traças não roem e nem a ferrugem corrói (ver Mateus, 6:19-20). Quando assistimos as melancólicas imagens de irmãos africanos ou mesmo brasileiros, via de regra exibindo as faces amargas e esqueléticas sustentadas por corpos cadavéricos indicando avançado estado de subnutrição crônica, ficamos a conjecturar quantos ali não foram um dia senhores de expressiva fortuna, mas que, por não aceitarem os apelos do bem, estão reencarnados em lares submetidos a dolorosa penúria a fim de aprenderem as lições da caridade e da compaixão.
   Como o dinheiro não é um fim em si mesmo, devemos nos precaver quando Deus o coloca em nossas mãos. Primeiramente, para não nos escravizarmos a ele. Em segundo, buscando compreender que se trata de um "empréstimo" do Alto à nossa evolução, cabendo a nós ter que "devolvê-lo" a qualquer momento. Em terceiro, buscando compartilhar com os menos afortunados através da caridade sem a qual sabemos hoje, graças ao Espiritismo, não haver salvação. Em quarto, fazendo aos outros aquilo que gostaríamos que nos fizessem.
   Infelizmente, a Humanidade ainda não percebeu que a riqueza é apenas mais um dos recursos temporariamente concedidos pela Providência Divina para a sua ascensão espiritual. Nesse sentido, caberá aos seus beneficiários prestar contas, no devido tempo, de como tais concessões foram empregadas em obras do bem, consoante os postulados cristãos.
 
Referências bibliográficas:
(1) FRANCO, Divaldo Pereira. Leis Morais da Vida. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 11. ed. Salvador: Livraria Espírita Alvorada, 2000, p. 123.
(2) BACELAR, Dolores. A Mansão Renoir. Pelo Espírito Alfredo. 7. ed. São Bernardo do Campo, 1985, p. 167.
(3) KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 124. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004, cap. XVI, item 13.
(4) XAVIER, Francisco Cândido. No Mundo Maior. Pelo Espírito André Luiz. 23. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003, cap. 18.
(5) Idem, ibidem. p. 281.
 
REVISTA DE ESPIRITISMO CRISTÃO.
ANO 123 - SETEMBRO 2005 Nº 2118.